VIOLÊNCIA E DESIGUALDADE, UM RETRATO DE BRASÍLIA

Como o Distrito Federal se tornou um dos lugares mais violentos do Brasil

DF refém da violência e do crescimento desordenado

DF refém da violência e do crescimento desordenado

Por: Débora Maia

Apesar de ser uma das regiões mais jovens do país, o Distrito Federal tem apresentado uma posição assustadora nas estatísticas sobre a violência no Brasil. Um dos Estados mais ricos da Federação, o DF tem encabeçado pesquisas e estatísticas sobre a criminalidade. Em 2007, a Secretaria Nacional de Segurança Pública divulgou um estudo que apontava o Distrito Federal como o segundo lugar mais violento do Brasil, atrás de São Paulo. O estudo foi elaborado levando-se em conta dez tipos de crimes que iam do homicídio ao atentado ao pudor. Nesse caso, o DF teve destaque por liderar o ranking de roubos, furtos e sequestros. Já em 2008, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas-IBGE, divulgou uma nova pesquisa que enumerava as dez cidades mais violentas do país, contabilizando o  número de homicídios para cada 100 mil habitantes, o DF apareceu na sétima posição, com 28 assassinatos para cada grupo.

Para aferir a escalada da violência no DF, entretanto, não é necessário recorrer às estatísticas. Há algum tempo os moradores de Brasília e região vêm convivendo com trágicas incidências de crimes de toda natureza. Em abril deste ano, uma série de delitos praticados por uma gangue, em uma única noite, revelou a força do crime e a fragilidade do sistema de segurança de que dispomos.

Três viciados em crack praticaram um sequencia de terror na cidade. Em menos de cinco horas, eles roubaram três carros, assassinaram duas pessoas e deixaram um policial ferido e sequestraram um homem. Como se não bastasse, arrombaram um apartamento no Sudoeste, renderam o morador e fugiram no automóvel da última vítima daquela madrugada. Em junho, a polícia federal descobriu, à poucos quilômetros da Esplanada dos Ministérios, outra cena desoladora de violência e abandono. Próximo ao Ribeirão da Fercal, em Sobradinho II, dezenas de crianças se prostituíam em troca de drogas e bebidas. Durante a operação da PF, que não prendeu nenhum adulto, foram encontrados, crack, maconha, cocaína, merla, cigarros, álcool e menos de R$ 15,00.

As vítimas de latrocínio aumentou assustadoramente no DF

As vítimas de latrocínio aumentou assustadoramente no DF

Para o professor de sociologia, José Carlos Rassier, o atual cenário de violência do DF não é nada inusitado por se tratar de uma característica comum às cidades desenvolvidas, mas que estão envoltas em um cinturão de pobreza e miséria.

“ Uma consequencia previsível  do crescimento desordenado dos grandes centros, é o aumento da criminalidade. A grande massa se aglutina em torno das cidades mais ricas mas não se beneficia do crescimento econômico. Isso gera uma revolta social, que gera a violência.  Brasília é hoje o maior PIB do país, só que isso  não se estende às demais cidades satélites do DF e entorno, apesar de eles buscarem aqui”.

Por outro lado, ele reconhece que a violência na capital não é causada apenas pela população do entorno, Brasília também carrega um histórico de crimes bárbaros, cometidos por essa população que é diretamente beneficiada pelo desenvolvimento da cidade. “Claro que não se pode responsabilizar a população das satélites e do entorno pela violência em Brasília. Aqui somos surpreendidos por um filho de juiz, por funcionário de banco, por um playboyzinho aí que mata mendigos, que queima e espanca pessoas, que agridem homossexuais, prostitutas… isso aqui em Brasília é comum”. Rassier avalia que a falta de perspectiva e a vida fútil, pode ser um dos motores para os jovens violentos da classe média de Brasília. “Eles têm carro do ano, moram nos condomínios nobres, não precisam se esforçar pra ter nada. Isso banaliza valores como a própria vida alheia. Eles agridem, matam como foi caso do índio Pataxó aqui em Brasília, dos jovens que espancaram a prostituta no Rio… E depois dizem que foi uma brincadeira mal sucedida. Os órgãos de justiça têm que voltar seus olhos para esses criminosos, a imprensa tem que voltar seus olhos para a classe média violenta, e impune”.

Outro problema a ser enfrentado, é a grande quantidade de armas de fogo em poder de jovens e adolescentes no DF. Semana passada, a Polícia Civil do Distrito Federal divulgou um balançou que apontou um crescimento de 29% de armas de fogo apreendidas. Segundo dados da polícia, 366 armas foram retiradas do poder de adolescentes. Esse cenário promove situações como a da diarista * Sandra Dias que veio de Teresina há seis anos. Ela conta que, na tarde de 19 de novembro de 2007, quando voltava do trabalho, foi abordada por um jovem que aparentava ter cerca de 18 anos. “Ele tinha uma arma e me rendeu, pediu que eu o acompanhasse. Eu o seguí, ele ameaçou me matar se eu gritasse. Então eu fui violentada, a poucos metros da pista principal que liga Planaltina à Sobradinho” diz. Segundo a diarista o caso foi encaminhado à polícia de Planaltina que, na época, investigava outras denúncias de estupro naquela região, entretanto, o molestador nunca foi preso. “Encaminharam-me pra tratamento psicológico no hospital de base e pronto, ficou nisso” desabafa.

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